Documentário mostra praia de Vitória que sumiu: ‘parte da nossa história foi desenterrada’


“Suá, a praia que sumiu” levou mais de três anos para ser feito e traz relatos de vários moradores que moravam no bairro Praia do Suá, em Vitória. Local foi aterrado no início da década de 1970. O mar e a areia deram espaço para prédios, praças e avenidas. Documentário conta a história de praia que sumiu em Vitória
Um bairro de Vitória carrega “praia” no nome, mas a Praia do Suá de hoje em dia não tem mais praia, nem sua tradicional faixa de areia ou barulho das ondas. Com o passar dos anos, o local foi aterrado, dando espaço para prédios, ruas asfaltadas e movimento diário de carros no lugar de banhistas.
Essas curiosidades sobre o bairro despertaram o interesse da historiadora e moradora da região, Thaís Helena Leite. Ela produziu um documentário que mostra a história do aterramento da praia. O filme vai ter sua pré-estreia neste sábado (5), na Igreja de São Pedro, que fica na região.
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Atualmente, a praia frequentada por banhistas e que fica mais próxima da Praia do Suá está a mais de 2 quilômetros de distância. É a Cruva da Jurema. Apesar dessas mudanças ao longo dos anos, a Praia do Suá, no entanto, ainda é um dos bairros mais tradicionais da Capital quando o assunto é pescaria. Suas ruas ainda abrigam várias peixarias e uma colônia de pescadores.
Algumas imagens (veja abaixo) mostram o antigo Hospital de São Pedro com a água da praia praticamente batendo na porta principal. No local havia até um píer. A estrutura segue de pé, com a famosa estátua de São Pedro lá no alto da construção, mas com uma nova utilidade: o local virou o pronto atendimento do bairro.
Ainda pelas ruas do bairro, o mar deu lugar a uma biblioteca estadual, vários prédios e pracinhas.
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O documentário “Suá, a praia que sumiu” possui 13 minutos e é dividido em dois blocos. A primeira parte mostra como era o bairro com a presença da praia, os moradores aproveitando o mar e conta até com registros de filmagens de 1926.
Já o segundo bloco foca nas obras do aterramento, que tiveram início nos anos 1970, durante o regime militar, e como o bairro ficou após as mudanças com a conclusão da obra, em 1979.
A produção foi atrás de vários moradores antigos que relataram também como foi perder a vista para a praia e ganharam uma visão para o asfalto, tudo em nome da modernização.
Pesquisa por quase cinco anos
A diretora do filme contou que pesquisa começou a ser feita em 2021 e o filme ficou pronto em fevereiro de 2025.
“Eu sou de São Paulo, mas moro no estado há 38 anos e moro no bairro desde o começo dos anos 2000. Eu comecei a me questionar: ‘como eu moro em um bairro chamado Praia do Suá e ele não tem praia? Cadê a praia?'”, disse Thais Helena.
Bairro Praia do Suá em Vitória, Espírito Santo, antes de obra de aterramento na década de 70
Reprodução/Documentário Suá, a praia que sumiu
A historiadora começou, então, a pesquisar em acervos históricos imagens que mostravam a praia que não existe mais, além de recuperar a memória de moradores antigos.
“O documentário é todo com imagens de arquivo, com uma parte principal em arquivos públicos, no arquivo nacional do Rio de Janeiro, na midiateca. Então, eu fiquei dois anos debruçada sobre a Praia do Suá, mergulhando no bairro”, comentou.
O filme conta uma equipe de 19 pessoas, dentre elas, moradores do bairro. Além da pré-estreia em Vitória, o documentário foi inscrito em pelo menos dez festivais nacionais, não só no Espírito Santo, mas no São Paulo, Rio e outros estados, além de três internacionais, em Portugal, Alemanha e Espanha.
“Foi uma experiência maravilhosa, eu sou uma apaixonada pela história, principalmente pela história do Espírito Santo. Fazer essa descoberta, trazer isso a tona e mostrar como era o bairro, como ele era interessante… Isso me encantou”, pontuou.
Mar deu lugar ao asfalto
Praia do Suá frequentada por banhistas em Vitória no final dos anos 20. Na década de 70 praia foi aterrada em Vitória, Espírito Santo
Paschoal Nardone 1928
Dezoito entrevistas foram feitas para resgatar a memória da praia que sumiu. Uma das moradoras que ajudou na construção do documentário foi a geógrafa Lúcia Helena Pazzini, de 63 anos, que está até hoje no bairro.
Em entrevista ao g1, ela se disse nostálgica ao relembrar dos momentos em que o mar batia na porta das casas. Da época em que brincar na praia é rotina comum.
“A minha infância toda foi nesse lugar. O aterramento começou quando eu tinha uns 11 anos, por volta ali de 1972. Eu cresci com o mar praticamente na minha porta, era a nossa principal via de lazer, eu mergulhava embaixo dos barcos. Fazia parte do nosso cotidiano. É muito diferente viver em um lugar tão próximo assim do mar. Tinha o frescor, a brisa, e o mar era tudo pra gente”, comentou a geógrafa.
Hospital São Pedro na Praia do Suá em Vitória, Espírito Santo, antes de aterramento realizado na década de 70. Estátua de São Pedro permanece até hoje no local
Paulo Bonino
Durante o período da obra, Lúcia Helena relembrou que muitos moradores não tinham noção da diferença que o aterramento faria ao cenário.
“A gente era criança e não entendia muito bem a obra. Lembro das dunas imensas, de muitas máquinas. A gente só via o mar se afastando. E depois do aterro, o bairro mudou muito, principalmente o trânsito. Eu sempre penso: era aqui que eu nadava, aqui achava fundo, e hoje é uma pracinha”, destacou.
A costureira Miriam Nolasco, de 66 anos, tirava da praia o seu sustento, catando vários animais marinhos para venda.
“Eu e meus oito irmãos mais velhos descíamos para tentar pegar sururu. A gente se divertia e, ao mesmo tempo, pescada. A gente conseguiu naquela praia aprender a mergulhar e hoje um irmão meu é até mergulhador profissional. É muito bom poder relembrar tudo que eu vivi. Mas, hoje, a impressão que eu tenho é de que a água pode voltar”, pontuou.
Para Lúcia, filha de pescador, participar do documentário serviu para reviver boas lembranças da infância.
“É uma homenagem para nós moradores antigos. Estou me sentindo muito emocionada e homenageada. Era uma história que tinha a tendência de ser esquecida. Tiraram o mar de nós, mas as marcas ficaram. A estátua de São Pedro tá ali para lembrar a gente desse passado lindo. O documentário desaterrou (e desenterrou) a nossa história, pois, parte da nossa história foi aterrada com o mar”, destacou.
Ficha técnica
Obra de aterramento sendo realizada na Praia do Suá, em Vitória, acabou com praia que dá nome ao bairro em Vitória, Espírito Santo
Agência nacional
Entre os recursos visuais utilizados no curta-metragem estão produções audiovisuais dos cinejornais da Agência Nacional da década de 1970, além de material de Julio Monjardim, fotos de Paulo Bonino e Douglas Bonella.
Conta com música composta especialmente para o documentário. A “Bossa do Suá”, de Jorge Tarzan, tem o compositor no violão, Edu Szajnbrum na percussão, Roger Vieira no piano e voz feminina de Andrea Ramos. Ainda fazem parte da trilha sonora trechos de músicas do álbum de Aurora Gordon, o Congo da Banda Amores da Lua e memórias em off de antigos moradores
O filme “Suá, a praia que sumiu” conta com recursos do Fundo Estadual de Cultura (Funcultura), da Secretaria de Cultura do Espírito Santo (Secult-ES), tendo sido selecionado por meio do edital de Produção Audiovisual.
O documentário tem classificação livre e contará com versões acessíveis, incluindo audiodescrição, janela de libras e legendas descritivas.
Serviço
Pré-estreia do documentário “Suá, a praia que sumiu”
Horário: 16h.
Local: Paróquia São Pedro, sala 9.
Endereço: Rua Neves Armond, 55, Praia do Suá, Vitória.
Entrada gratuita
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