A programação dos festivais de música está ruim ou nós é que envelhecemos?


Eventos ‘perderam’ os 30+ nos últimos anos, e agora vivem dilema tentando trazê-los de volta, ao mesmo tempo em que agradam os novinhos. Line-up mais plural pode ajudar; leia análise. Olivia Rodrigo no Lollapalooza 2025
Reprodução/Globo
A cada grande festival de música no Brasil, é comum se deparar com críticas à escolha das atrações ou comentários do tipo: “não conheço nem um terço desses artistas”. Mas, em meio a eventos lotados, cabe a autocrítica: será que a programação está ruim ou nós é que envelhecemos?
A edição de 2025 do Lollapalooza, que terminou neste domingo (30) em São Paulo, mostra que não é tão simples responder a essa pergunta.
Sim, o festival teve falhas na programação, a menos diversa — e uma das mais criticadas — dos últimos anos. Por outro lado, algumas apresentações, como a da popstar americana Olivia Rodrigo, reuniram um público muito mais engajado do que a média, uma evidência clara do embate geracional que também ronda esse tipo de evento.
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É fato que o público dos festivais está mais jovem. Uma herança da pandemia de coronavírus, o receio de multidões contribuiu para afastar os millennials (nascidos entre os anos 1980 e a primeira metade de 90) dos grandes eventos de música, a partir da retomada dos shows em 2022.
O problema é que, entre os mais velhos, o poder aquisitivo é maior: há mais pessoas que podem pagar os ingressos de até R$ 1.050 por dia, sem precisar contar com a boa vontade dos pais. Nesse contexto, os festivais vivem um dilema: tentam trazê-los de volta — a escalação de Alanis Morissette e Justin Timberlake para o Lollapalooza 2025 faz parte desse esforço –, ao mesmo tempo em que precisam priorizar os novinhos.
No Lolla que acabou neste domingo, o resultado foi uma programação dominada por nomes tão amados por adolescentes quanto ignorados pelos pais deles. No dia mais lotado da edição, Olivia Rodrigo, de 22 anos, emocionou fãs e comprovou o status de ídolo jovem, mesmo perdendo o fôlego e a voz em músicas mais agitadas no palco.
Para um grupo da mesma faixa etária, menor, mas também empolgado, a cantora norueguesa de indie pop Girl in Red, 26, protagonizou um dos momentos mais emblemáticos da edição, cantando sobre amor entre mulheres diante de um belo arco-íris no Autódromo de Interlagos.
‘One-hit-wonders’
Outros artistas, escolhidos a dedo para atrair os mais jovens, não tiveram a mesma sorte. Donos de hits virais do TikTok e Instagram, Benson Boone, Tate McRae e Nessa Barrett fizeram apresentações frágeis, mais focadas em piruetas e coreografias do que na música em si. Também não ajuda o fato de boa parte do público só conhecer uma faixa desses artistas: a que faz sucesso na internet. A plateia fica dispersa no restante do setlist.
Benson Boone se apresenta no Lollapalooza 2025
Tomzé Fonseca/Agnews
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Em entrevista ao g1 antes do evento, o diretor artístico do Lollapalooza, Marcelo Beraldo, contou que a organização avalia se uma atração é “one-hit-wonder” antes de inclui-la na programação. “Em geral, para chegar no Lolla, o cara já rodou uma ou duas turnês completas. Não tem marinheiro de primeira viagem, são shows que já estão indo bem lá fora”, disse.
Novidades da música, que ainda tentam se firmar, são muito bem-vindas em festivais. Mas, além do desempenho dos shows, é preciso considerar se o artista já tem uma base consolidada de fãs: pessoas dispostas a guardar o celular e prestar atenção no que está acontecendo no palco, mesmo quando ele não está cantando um hit. Uma plateia dedicada também faz um bom festival.
MC Cabelinho se apresenta no Rock in Rio 2024
Miguel Folco/g1
Um exemplo positivo aconteceu no Rock in Rio de 2024, que se abriu para o trap, um fenômeno de popularidade na geração Z (dos nascidos a partir de 1995). Graças a ele, o festival teve um primeiro dia arrebatador no ano passado, lotado de jovens com energia para pular do início ao fim dos shows.
Esse é também um dos efeitos de uma programação mais plural. No Lolla, o line-up de 2025 foi muito focado em pop, rock e eletrônico. Estilos de origem periférica, como o rap e o funk, tiveram poucos representantes, e a falta de diversidade nos palcos refletiu em um público também menos diverso.
Não por acaso, duas das melhores apresentações foram de artistas que fugiram do padrão desta edição: Michael Kiwanuka (soul) e Ca7riel & Paco Amoroso (pop latino) fizeram performances focadas na música, que atraíram curiosos de todas as idades. O tipo de resposta do público que se espera em um festival, e que pode ajudar a pensar novos caminhos para o ano que vem.

g1

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