Logo depois de a Primeira Turma decidir acatar a denúncia contra Bolsonaro e sete ex-assessores, bolsonaristas passaram a defender a votação de uma Proposta de Emenda Constitucional, que está engavetada, que acaba com o fim do foro privilegiado. Se aprovada, poderia tirar do STF o julgamento da ação penal em que o ex-presidente se tornou réu. Além disso, os bolsonaristas passaram a ameaçar obstruir a pauta de votação da Câmara se o projeto de anistia não for colocado para apreciação.
Na avaliação da equipe de Lula e de integrantes do Supremo, os presidentes da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, e do Senado, Davi Alcolumbre, não irão dar prioridade ao debate destas duas propostas. Os dois já chegaram a dar declarações que a anistia não é um tema de interesse da população, e que eles querem dar prioridade neste início de ano à votação de projetos da agenda econômica para baixar a inflação e fazer o país seguir crescendo.
Motta tem dito que vai colocar o assunto para discussão na reunião de líderes, e que eles é que vão decidir. Na verdade, o presidente da Câmara sabe que, hoje, não há maioria dentro do colégio de líderes para colocar o projeto da anistia e o fim do foro privilegiado em votação neste primeiro semestre.
“Eles querem dividir a atenção da mídia com o recebimento da denúncia”, diz um magistrado do STF. Um assessor de Lula vai na mesma linha. “Os bolsonaristas sabem que não há maioria na Câmara nem no Senado para discutir esses temas, eles querem desviar a atenção da decisão do Supremo de transformar Bolsonaro em réu”, afirmou.
Os aliados de Bolsonaro admitem que a semana foi péssima para o ex-presidente. Ele virou réu no STF, está cada vez mais fora da próxima eleição e gerando de novo provas contra ele, facilitando a vida da Procuradoria Geral da República na defesa que fará de sua denúncia na fase de instrução da ação penal.
Segundo interlocutores do ex-presidente, ele não consegue ficar calado e facilitou e muito o trabalho da PGR quando admitiu publicamente que discutiu a minuta do golpe com militares no Palácio da Alvorada. Basta agora a PGR lembrar o conteúdo golpista durante a ação penal para dizer que o ex-presidente operou, sim, para tentar colocar de pé um golpe de Estado.
“Ele não seguiu as orientações de seus advogados e criou mais problemas para ele”, diz um assessor de Bolsonaro. Além disso, a semana mostrou, na avaliação de seus aliados, que Bolsonaro pode até escapar de uma ligação direta com os atos golpistas, mas não de uma punição por ter discutido, articulado e tentado convencer militares a aderir à minuta golpista. Ou seja, se já está inelegível por decisões do TSE, ficará também por decisão do STF.