Sambistas da Velha Guarda levam memórias do passado e base para o futuro das escolas de samba do Rio

A equipe do JH foi até a Cidade do Samba, na Gamboa, para ouvir a Velha Guarda falar sobre suas trajetórias e valorização do samba ao longo das décadas. Sambistas da Velha Guarda: Memórias do passado e base para o futuro das escolas de samba do Rio
A Velha Guarda do carnaval carioca não está aí somente para lembrar dos sambas antigos, dos carnavais do passado. Muitos desses homens e mulheres são testemunhas de um tempo em que o sambista era visto com desprezo, de acordo com os relatos dos veteranos do samba.
Dos desfiles na Praça Onze ao Sambódromo, Centro do Rio, o carnaval do Rio cresceu tanto que, atualmente, tem um complexo de galpões para a produção de carros, fantasias e adereços.
Foi exatamente na Cidade do Samba, bairro da Gamboa, que a equipe do JH encontrou outra pequena parte das memórias dessa festa. A Velha Guarda representa a própria trajetória da cultura negra, para se afirmar e se fazer valorizar num país até hoje profundamente marcado pela tragédia da escravidão.
“Só que o samba era marginalizado. Tanto que fui muito descriminada, mulher preta saindo em escola de samba. Aqueles que me descriminaram, agora batem palma para mim”, conta Tia Surica, ícone da Velha guarda da Portela.
O que hoje é chão de quadra, no começo de tudo era terra batida. Antes de tocar o samba do ano, toda escola esquentava cantando samba de terreiro. No solo sagrado de Madureira, a Velha Guarda da Portela são sentinelas da tradição. Tia Surica conta já se foram 80 anos desfilando na escola.
“Eu comecei a sair na Portela com quatro anos, tô com 84. Peguei Praça Onze. Eram sambas assim, temas comuns do dia a dia. Mulher vai embora, samba, volta. A característica de samba de terreiro”.
Dona Gilda, membro da Velha Guarda da Mangueira, conta como era a composição das fantasias antigamente.
“Cada um fazia sua roupa, costureira fazia ala e não tinha ala das baianas. Eram as baianas da Mangueira. Cada uma fazia a sua às escondidas. As alas, agora, são todas iguais. mas naquela época, cada uma fazia a sua e bordava com lençol”.
Ricardo é sambista da Imperatriz Leopoldinense e conta que ficou décadas até ir para a ala dos experientes.
“Fiquei 50 anos em alas e depois, com o tempo, senti necessidade de ir para Velha Guarda”.
Na Estação Primeira, tem que seguir estatuto para entrar na Velha Guarda.
“Mais de 30 anos, porque o estatuto diz ‘30 anos de sócio’ e no mínimo, 60 de idade”, diz Dona Gilda.
“Eu desço do metrô, todo mundo me olha, eu sou velha guarda. É muito demais, é tudo, é ápice”, diz Ricardo.
O que não está escrito é o respeito que os experientes do samba inspiram. São tantas páginas belas que, na sala de troféus da Portela, tia Surica tem dificuldade para escolher a conquista mais importante.
“Caxias, tem história emocionante”.
Foi tanta luta que, de vez em quando, alguém pode sentir certo cansaço natural. O frescor de um novo carnaval pode encher de mocidade toda a Velha Guarda.
“A gente não tem excesso de cansaço, estamos junto e vamos desfilar”.
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