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Mudança é a oitava troca de ministros desde o começo do atual mandato presidencial. Lula e Nísia Trindade, em imagem de arquivo
Reprodução/CanalGov
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou nesta terça-feira (25) a demissão da ministra da Saúde, Nísia Trindade.
A troca de Nísia já era especulada há semanas, como parte de uma reforma ministerial em etapas para fortalecer a posição do governo Lula em duas áreas críticas: a relação com o Congresso e a recuperação da popularidade junto ao eleitorado.
Socióloga de formação, Nísia ficou famosa por ter presidido a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) entre 2017 e 2022 — período que incluiu os anos críticos da pandemia de Covid-19 (veja biografia completa abaixo).
Nísia foi anunciada ministra da Saúde ainda durante a transição do governo Lula, como um aceno à comunidade científica e uma tentativa de demarcar a mudança de posição em relação ao governo Jair Bolsonaro e ao negacionismo científico.
No Ministério da Saúde, no entanto, Nísia Trindade enfrentou seguidas crises e críticas por não ter o traquejo político necessário para lidar com o maior orçamento da Esplanada dos Ministérios – e com a demanda de parlamentares por emendas e reuniões, por exemplo.
Em fevereiro de 2024, por exemplo, o então presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e líderes partidários enviaram um requerimento formal a Nísia para cobrar a liberação de emendas parlamentares na Saúde. Em resposta, a pasta disse que seguia “critérios técnicos”.
Na manhã desta terça (25), quando os rumores de uma troca no Ministério da Saúde já se avolumavam, Lula e Nísia comandaram uma solenidade para anunciar projetos na área de fabricação nacional de vacinas. Nísia foi bastante aplaudida ao ser anunciada ao microfone – veja abaixo:
A perigo no cargo, ministra Nísia Trindade, da Saúde, é aplaudida em evento no Planalto
Apoio no Congresso e crise internas
Até janeiro, o governo Lula já tinha feito sete trocas ministeriais no atual mandato.
A maior parte dessas mudanças atendeu a uma entre duas motivações principais: tentar ampliar o apoio ao governo (no Congresso ou no eleitorado) ou resolver uma crise criada pelo próprio governo.
Para conseguir votos no Congresso, o governo ampliou gradualmente a presença dos partidos do chamado “Centrão”, e até de siglas de direita, na Esplanada dos Ministérios:
no Turismo, trocou Daniela do Waguinho (ex-Republicanos, atual União-RJ) por Celso Sabino (PSD-PA);
nos Esportes, tirou Ana Moser (sem partido) para colocar André Fufuca (PP-MA);
nos Portos e Aeroportos, Lula abrigou Silvio Costa Filho (Republicanos-PE) – e aí, criou o Ministério de Micro e Pequenas Empresas para remanejar Márcio França (PSB-SP).
Para conter crises e tentar resgatar a popularidade perdida com setores do eleitorado, foram outras três trocas:
no Gabinete de Segurança Institucional (GSI), o general Gonçalves Dias deu lugar ao também general Marcos Antônio Amaro em maio de 2023, após vídeos mostrarem Dias circulando entre os vândalos do 8 de janeiro de 2023;
no Ministério dos Direitos Humanos, Silvio Almeida foi demitido em 2024 em meio a acusações graves de assédio moral e sexual e deu lugar a Macaé Evaristo – ambos, com pouca ligação partidária e mais vinculados à academia e aos movimentos sociais;
na Secretaria de Comunicação Social, Paulo Pimenta saiu em janeiro deste ano para dar lugar ao marqueteiro Sidônio Palmeira, em uma tentativa de renovar a comunicação do governo e tirar a popularidade de Lula do ponto mais baixo já registrado em três mandatos.
A única mudança que escapou a esse padrão foi a de Flávio Dino. Senador eleito em 2022, o político comandou o Ministério da Justiça em 2023, mas foi indicado por Lula para uma cadeira no Supremo Tribunal Federal (STF).
Em substituição, Lula escolheu o ministro aposentado do STF Ricardo Lewandowski, que chefia a pasta desde então.
Alexandre Padilha
Nome de confiança de Lula, Alexandre Padilha foi escalado no começo do governo como ministro da Secretaria de Relações Institucionais (SRI), responsável pela articulação do Planalto junto ao Congresso Nacional.
Padilha, que é deputado federal pelo PT (SP), já havia ocupado o mesmo cargo no segundo mandato de Lula. Médico sanitarista, doutor em Saúde Pública e professor universitário, também foi ministro da Saúde no governo Dilma Rousseff, entre 2011 e 2014. Na sua gestão foi criado o programa Mais Médicos.
Padilha também atuou na cidade de São Paulo, no governo de Fernando Haddad como prefeito. Ele foi secretário de relações governamentais (2015) e secretário municipal de saúde (2015-2016).
Neste terceiro mandato de Lula, Padilha atuou nas articulações para aprovar o arcabouço fiscal, a reforma tributária e a primeira etapa da regulamentação das novas regras do sistema de impostos.
O ministro, no entanto, sofreu críticas pela dificuldade do governo na relação com Congresso, dependente do apoio dos partidos do Centrão. O então presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), afirmou em diversas oportunidades que a base de Lula era frágil e chegou a romper relações com Padilha.
Nísia Trindade
Primeira mulher a ser ministra da Saúde, Nísia Trindade é socióloga de formação, com doutorado na área e mestrado em Ciência Política. Pesquisadora e professora universitária, ganhou destaque como presidente da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) entre 2017 e 2022.
À frente da Fiocruz, Nísia se destacou nos esforços para mitigar os efeitos da pandemia de Covid-19, em um período no qual o então presidente Jair Bolsonaro (PL) incentivava aglomerações e questionava sem provas a eficácia das vacinas. A atuação colocou a pesquisadora na equipe de transição de Lula e, a partir de janeiro de 2023, no cargo de ministra da Saúde.
Sem filiação partidária, mas próxima do PT, Nísia teve o cargo cobiçado por partidos do centrão nos últimos dois anos. A ministra teve de reorganizar a pasta e fez uma gestão com discurso de defesa do Sistema Único de Saúde (SUS). No entanto, seu trabalho foi criticado dentro do governo.
Lula lançou com Nísia o Mais Especialidades para facilitar o acesso a consultas especializadas pelo SUS, porém entende que o programa demora a engrenar e não tem a visibilidade necessária.
O presidente gostaria que o Mais Especialidades fosse uma das marcas do terceiro mandato. Também pesou contra Nísia a dificuldade para lidar com o surto de dengue em 2024 e problemas na gestão de vacinas. Por outro lado, houve aumento da cobertura vacinal no calendário infantil.