Mulheres são diagnosticadas com bactéria resistente após procedimentos estéticos no DF, denuncia cirurgião plástico


Pelo menos duas pacientes terão que retirar parte da maçã do rosto para remover bactéria. Segundo médico, ela é resistente a medicamentos orais e área infectada deve ser removida. Micobactéria no glúteo de mulher no DF
TV Globo/Reprodução
Em apenas uma semana, o cirurgião plástico Rodrigo Bastos recebeu no consultório dele, na Asa Sul, em Brasília, duas pacientes com a mesma queixa: uma infecção na maçã do rosto, semanas após a realização de procedimentos, em clínicas de estética do Distrito Federal. Segundo ele, as duas foram acometidas por uma micobacteria de difícil tratamento – a Mycobacterium abscessus que provoca infecções crônicas na pele, tecidos moles e, em alguns casos pode até atingir os pulmões.
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O que provocou a infecção, de acordo com o médico, foram erros na hora de realizar os procedimentos estéticos.
“A contaminação por micobactéria sugere uma contaminação grosseira. Quer dizer, uma grande falha em todo o processo, seja no manejo do produto ou até mesmo na realização em si do procedimento”, afirma Bastos.
O médico cita como exemplo, do que ele chamou de erros grosseiros:
Uso de luvas de procedimento, em vez de luvas estéreis
Falta campos estéreis para realizar os tratamentos
Não limpar adequadamente a região a ser tratada
E reutilização de soro fisiológico
O cirurgião plástico afirma que estes não são casos isolados. Ele relata que outros médicos, de grupos de estudos dos quais ele faz parte, também têm recebido queixas de pessoas infectadas por micobactérias resisistentes, após procedimentos, e não só no rosto, mas também nos glúteos (veja foto no início da reportagem). Para o médico, a suspeita é de que haja um surto de micobactérias em hospitais do DF.
A Secretaria de Saúde do Distrito Federal nega a existência de qualquer surto (saiba mais abaixo).
Rodrigo Bastos diz que para estes casos de infecção por micobactérias, o mais indicado é a retirada do tecido afetado, além de toda a substância injetada durante o procedimento estético. Na prática, segundo o médico, as duas pacientes dele – que não quiseram gravar entrevista – podem perder uma parte da maçã do rosto, que vai diminuir de volume e só poderá ser recuperada após dois ou mais procedimentos para tentar melhorar o dano estético causado.
O que diz a secretaria de Saúde
A secretaria de Saúde do Distrito Federal informou que não existe surto por esse tipo de bactéria em nenhum hospital da rede pública. Em nota, esclareceu que, “até o momento, neste ano, foram notificados apenas três casos de infecção por micobacteria: um após uma cirurgia odontológica, outro relacionado a um procedimento cirúrgico oftalmológico, e um terceiro associado a uma cirurgia plástica”.
A secretaria afirma também que a Vigilância Sanitária do Distrito Federal segue monitorando a situação de forma rigorosa.
Fiscalização
De janeiro a fevereiro deste ano, a Vigilância Sanitária realizou visitas a 36 clínicas de estética em todo DF. Dessas 31 foram inspecionadas após denúncias registradas via Ouvidoria. Uma clínica em Taguatinga foi interditada.
Em 2024, foram vistoriadas 377 clínicas de estética, 83 delas após registros de reclamações. Foram feitas 13 interdições em diferentes regiões: Águas Claras, Brasília Sul, Ceilândia, Gama e Planaltina.
Os principais motivos para as interdições foram a inexistência de local adequado para a esterilização de instrumentais e a realização de procedimentos estéticos invasivos sem o devido licenciamento sanitário.
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Vigilância Sanitária e Anvisa autuam clínicas de estética no DF
Equipes verificaram uso de produtos e aparelhos não registrados, com destaque para o polimetilmetacrilato (PMMA), um preenchedor cutâneo utilizado em procedimentos estéticos e odontológicos
Em fevereiro deste ano, a Anvisa fez uma inspeção nas clínica de estética do DF e identificou o uso incorreto ou sem registro da substância polimetilmetacrilato (PMMA) – utilizado por médicos e odontólogos para preenchimento cutâneo de pequenas áreas do corpo. No entanto, em alguns casos, o produto tem sido utilizado para procedimentos estéticos de forma indiscriminada, provocando, entre outras consequências, lesões ou necroses em nariz, boca e glúteos. O uso incorreto pode levar à morte do paciente. . Um dos estabelecimentos foi parcialmente interditado por falta de licenciamento sanitário, produtos vencidos e descarte inadequado de resíduos.
Durante a inspeção, as equipes da Secretaria de Saúde (SES-DF) e da Anvisa identificaram ainda falta de licença sanitária e de responsável técnico pelos procedimentos, produtos sem registro ou vencidos e frascos sem identificação.
No DF, todas as clínicas inspecionadas foram autuadas e uma está parcialmente interditada.
A substância
Foco da ação, o PMMA é
No Brasil, atualmente, há somente dois produtos registrados na Anvisa contendo o PMMA em sua composição. Após denúncias e investigações, foi constatado o uso de variantes não registradas da substância – o que pode gerar grande risco à saúde.
Denúncias e fiscalização
De acordo com relatórios anuais disponibilizados pela Anvisa, dados de 2023 apontam que 61,3% das denúncias estavam relacionadas a serviços de estética e embelezamento. “É importante que o usuário desconfie de promessas milagrosas, bem como preços muito abaixo da média de mercado”, alerta Iwakawa.
A recomendação é consultar, junto à Vigilância Sanitária, se o estabelecimento possui alvará/licença sanitária válida, bem como conferir se o profissional possui credencial para atuar no ramo. É ainda direito do paciente/consumidor saber quais produtos estão sendo aplicados e conferir a regularidade dos mesmos em https://consultas.anvisa.gov.br/#/
No DF, o serviço de fiscalização pode ser requisitado por meio dos canais de atendimento da ouvidoria: via internet, pelo telefone 162 ou presencialmente em qualquer unidade de ouvidoria do Governo do Distrito Federal (GDF). Ao constatarem insumos médicos ou medicamentos irregulares ou não registrados pela Anvisa, os agentes habilitados apreendem os produtos e autuam o estabelecimento. Os infratores podem sofrer penalidades sanitárias, que variam desde advertências até interdições e suspensões de licenciamento sanitário.
Segurança ao paciente
A operação “Estética com Segurança” coordenada pela Anvisa, em parceria com as Vigilâncias Sanitárias locais, ocorreu em diversos outros estados como Goiânia (GO), São Paulo (SP), Osasco (SP), Barueri (SP) e Belo Horizonte (MG). O objetivo é minimizar situações que possam trazer risco à saúde dos usuários e alertar a população sobre os perigos reais dos procedimentos estéticos.
Contando com a participação de cerca de 50 fiscais dos níveis federal, estadual e municipal, a ação também envolveu inspeções investigativas em dois fabricantes de dispositivos médicos nas cidades de Anápolis (GO) e Porto Alegre (RS).
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