MP pede cassação de presidente da Câmara de São Luiz por compra de votos: ‘Dá duzentinho para cada um que é para alegrar’


MP Eleitoral usou como provas conversas interceptadas de Faguinho (PP) com a esposa onde combinam pagamentos de compra de votos. Faguinho (PP) foi eleito como presidente da Câmara de São Luiz do Anauá
Divulgação
O Ministério Público Eleitoral (MPE) de Roraima pediu a cassação por compra de votos do presidente da Câmara de São Luiz, o vereador Fagner De Matos Gomes, mais conhecido como Faguinho (PP). O g1 teve acesso à investigação nesta quinta-feira (27), que mostra conversas do presidente em que ele combina pagamentos à eleitores.
Foram usadas conversas com a esposa do presidente interceptadas pela Polícia Federal (PF) em operação no dia 3 de outubro de 2024, às vésperas das eleições.
Nelas, Valdênia Soares, esposa do presidente, organiza listas de eleitores em conversas com Faguinho, pede para dar dinheiro (chamados de boca de urna, ou BU, como é conhecido a prática de compra de votos), organiza transporte para eleitores e até envia cópias de documentos de eleitores indígenas. (Veja as conversas abaixo).
O pedido foi enviado ao juizado da 4ª Zona Eleitoral e assinado pela promotora Lara Von Held Cabral Fagundes no dia 15 de janeiro.
“Dá ‘duzentinho’ para cada um que é para alegrar, que é para despesa”, disse o presidente antes de ser eleito vereador em conversa com a esposa por WhatsApp.
Saiba quem é Faguinho (PP) e conheça a mesa diretora da Câmara Municipal de São Luiz
Entre os pedidos estão a inelegibilidade de oito anos e a cassação do diploma do presidente da câmara. O g1 procurou Faguinho e a esposa, Valdênia Soares, questionou se há o interesse em se posicionar e aguarda resposta.
“[…] conclui-se que a conduta praticada pelo investigado FAGNER DE MATOS GOMES sem sombra de dúvidas caracteriza abuso de poder econômico, o que evidencia a alta gravidade e por consequência têm o condão de romper a lisura do pleito eleitoral e normalidade das eleições”, consta no documento.
‘Dá uma BU para ele e para a vózinha dele’
Faguinho (PP) e a esposa, Valdênia Matos, em publicação nas redes sociais
Reprodução/Instagram/vereadorfaguinho85
Durante uma operação da PF, foram encontrados em um carro com um amigo pessoal de Faguinho diversos materiais de campanha do então candidato, além de envelopes bancários com valores anotados manualmente. Em um desses envelopes tinha a quantia de R$ 250 em cédulas de R$ 50.
O amigo afirmou que o carro pertencia a Faguinho e que o dinheiro era de uma de suas empresas. Durante as diligências, entregou o celular aos agentes e alegou que o então candidato não possuía telefone. No entanto, os registros mostravam um histórico de ligações com o presidente.
Os agentes então pediram para que Faguinho os levassem para a casa dele. Lá, encontraram a esposa, Valdênia Soares e diversas cópias de títulos de eleitores, incluindo documentos de indígenas da comunidade Waiwai. Valdênia então entregou o celular aos agentes.
No celular, a PF encontrou conversas entre os dois datadas de setembro de 2024. Eles comentam que “precisam” fazer o pagamento de BU para uma eleitora no valor de R$ 300, e que o dinheiro estava escondido em um guarda-roupa.
Minutos depois, Valdênia enviou áudio para Faguinho. Segue o diálogo:
Valdênia: “A [eleitora] mandou mensagem dizendo que esqueceram de fazer o pix dela”.
Faguinho: “Pede o pix então, faltou ela. Fala para [assessora] fazer pra ela”.
No mesmo dia, Faguinho pediu para Valdênia enviar outra boca de urna:
“Amor, passa no [eleitor] e dá uma BU para ele e para a vozinha dele. Dá ‘Duzentinho’ para cada um que é para alegrar, que é para despesa”, disse o então candidato à esposa.
No dia seguinte, Faguinho enviou diversos áudios para Valdênia, solicitando a ela que fizesse os pagamentos para pessoas que estavam cobrando dinheiro em troca de votos. Entre os valores estavam: R$ 300 para duas eleitoras; R$ 900 para pagar o hotel de um amigo; R$ 600 para moradores de uma vicinal; entre outros valores.
Eles organizaram uma lista com 15 nomes de eleitores que receberiam boca de urna. A lista foi chamada de “Lista da Leila”.
“Pode empurrar esse dinheiro todinho na Leila, isso é voto seguro”, disse Faguinho.
A PF também interceptou conversas em que Valdênia organiza com um motorista o transporte para pessoas irem votar em Faguinho nas eleições em troca de dinheiro.
“Organizar vinda de van pra São Luiz pra eleição”, disse a esposa.
De acordo com o Ministério Público, os elementos apurados demonstram um “padrão de repasses financeiros a eleitores, evidenciando a intenção de influenciar votos”.
“As expressões repetidamente utilizadas nas conversas, como “BU” e “BUzinha” — evidentemente em referência a boca de urna —, “trezentinho”, e até mesmo a peculiar menção a valores para “alegrar” eleitores, não deixam margem para interpretações descontextualizadas ou para a defesa de que se tratariam de diálogos genéricos ou cotidianos”, consta no documento.
A defesa de Faguinho não contestou o conteúdo das conversas extraídas dos celulares periciados. Na investigação, ele alegou que os diálogos estavam descontextualizados, mas, de acordo com o MP, em nenhum momento negou a existência das mensagens.
“O conteúdo das mensagens, longe de permitir interpretações alternativas ou alegações de descontextualização, é direto e inconfundível, corroborando o enquadramento jurídico das condutas descritas”, destaca a promotora.
Faguinho (PP)
Posse da mesa diretora e do prefeito de São Luiz do Anauá, município ao Sul de Roraima
Divulgação
Este é o primeiro mandato de todos os membros da mesa diretora da Câmara do município. Faguinho (PP) tem 39 anos, é casado, declara ao TSE a ocupação de empresário, um patrimônio de R$ 520 mil, e informa ter ensino médio completo.
Ele foi eleito presidente no dia 1º de janeiro, quando tomou posse. Nas redes sociais, Faguinho publicou vídeos comemorando a posse. Ele se referiu à mesa diretora do município como “O G5”.
Nas eleições de 2024, o presidente foi apoiado pelo governador de Roraima Antonio Denarium (PP).
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