Após enchentes, RS tem recorde de empresas quebradas; símbolo de recomeço de vila fecha as portas


Dados da Junta Comercial, Industrial e de Serviços mostram que quase 147 mil empresas fecharam em 2024, ano marcado pela enchente histórica no estado. Dona de restaurante símbolo do recomeço em vila arrasada pelas cheias precisou encerrar o negócio, em meio a dívidas e poucos clientes. Taís, dona do restaurante Novo Recomeço, em frente à casa temporária em que vive com o filho
Arquivo pessoal
, ainda de acordo com os números da Junta Comercial gaúcha.
Símbolo da tentativa de reconstrução de Mariante, vila bicentenária devastada pelas enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em maio de 2024, o restaurante Novo Recomeço fechou as portas no início de 2025.
“Tivemos que pagar umas outras contas das outras enchentes. O pior nem é isso: devo R$ 30 mil e estou sem um centavo no bolso”, conta Taís de Souza, de 34 anos, dona do Novo Recomeço.
A Vila Mariante fica em um distrito de Venâncio Aires, município a 130 km da capital Porto Alegre, e à beira do rio Taquari. O restaurante, que integrou uma série de reportagens do g1 sobre a realidade da vila, não resistiu à falta de clientes e o abandono.
A vila gaúcha de 250 anos arrasada pelas enchentes no RS
Mariante e o novo recomeço (de novo)
Recorde de empresas fechadas
Foram menos de 6 meses entre reabrir o restaurante e decidir fechá-lo, uma realidade enfrentada por outras centenas de empresas no Rio Grande do Sul depois da tragédia que atingiu o estado em maio passado.
Segundo dados da Junta Comercial, Industrial e Serviços (Jucis-RS), divulgados neste mês, o estado registrou recorde de fechamento de empresas em 2024: 146.829. O aumento é de 12% em relação às 130.678 empresas fechadas em 2023.

Os números também levam em conta empresários, Microempreendedores Individuais (MEIs), cooperativas e Empresas Individuas de Responsabilidade Limitada (EIRELI).
Outras 60 empresas gaúchas decretaram falência, o maior número desde 2020 — ano em que teve início a pandemia de coronavírus. Antes, o maior número havia sido registrado em 2019, com 92 falências. Desde 2003, início do levantamento da Jucis-RS, o recorde ocorreu em 2004, com 440 falências.
Em 2024 também houve crescimento entre as empresas que pediram recuperação judicial: 163, maior número desde 2018, quando a Juci começou a levantar este dado. Em comparação com 2023, quando houve 110 recuperações judiciais, o crescimento é de 48%.
Os dados de janeiro de 2025 indicam que o mês teve o maior fechamento de empresas desde o início do levantamento da Jucis. Foram 18.452 fechamentos de empresas, contra 14.164 em janeiro de 2023 — então pior marca. A alta registrada é de 30%.
Recomeço frustrado
Viviam quase 5 mil pessoas na Vila Mariante antes da enchente de maio de 2025. Quase um ano depois, poucos deles voltaram. A ex-dona do restaurante Novo Recomeço estima em 300 pessoas, algumas vivendo em casas com resquícios da tragédia.
As ruas, casas e comércios da vila ficaram danificados, foram levados pela água ou acabaram completamente destruídos pela enchente (leia mais abaixo).
Taís conta que o desafio de reconstruir a vila ao longo de 2024 foi maior do que puderam encarar, mesmo já tendo enfrentado outras enchentes em um período de menos de um ano.
“Nossa situação piorou bastante [no fim de 2024]. Tivemos que fechar nosso restaurante. Não deu mais, não tinha movimento”, lamenta.
Além de fechar o restaurante, Taís decidiu deixar a Vila Mariante. Pediu ajuda à Prefeitura de Venâncio Aires e recebeu aluguel social por três meses em uma casa na área urbana do município. A ajuda acaba em março e, segundo a Prefeitura, Taís aguarda o fim do processo da Caixa para receber uma casa do programa Compra Assistida. O programa do governo federal consiste em ceder um imóvel a pessoas atingidas pela tragédia.
Novo recomeço de Mariante: arrasada pelas enchentes, vila gaúcha tenta se reconstruir
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Casa temporária
Temporariamente, Taís e o filho de 9 anos vivem na área urbana do município, a cerca de 30 km do vilarejo. O garoto teve que trocar de escola duas por conta da distância: primeiro, foi para um colégio em um distrito vizinho à vila e, agora, estuda em um colégio próximo à casa temporária.
Enquanto a casa do programa federal não é liberada, Taís tenta encontrar um emprego para recomeçar a vida depois de fechar o restaurante.
“As pessoas lá na vila estão voltando para as casas destruída porque não têm pra onde ir”, diz a moradora da Vila Mariante. “Estamos no aluguel social só mais esse mês. É muito desesperador sabe ainda mais tendo filho pequeno”.
Foto de novembro de 2024: Casa segue pendurada no meio da vila gaúcha de Mariante meses depois da enchente que atingiu o Rio Grande do Sul.
Fabio Tito/g1
Relembre a história de Mariante
O g1 esteve em Mariante logo após as enchentes atingirem a região e mostrou os impactos das inundações e o sofrimento das pessoas atingidas pela tragédia (relembre aqui).
Sete meses depois, em dezembro de 2024, uma série de reportagens mostrou a realidade da vila, dividida entre a destruição e o desafio de um novo recomeço.
Mapa mostra área de risco na Vila Mariante
Arte/g1

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