Motoristas enfrentam desafios para evitar insegurança no Rio com erros e falta de informação em placas e GPS

RJ2 embarcou com um motorista de aplicativo que explicou como faz para tentar evitar ser abordado por traficantes fortemente armados. Motoristas enfrentam desafio de escapar da insegurança com erros em GPS e placas
Motoristas que trafegam pelo Rio tem enfrentado o desafio de evitar entrar abordagens violentas em áreas dominadas pelo tráfico, mesmo usando GPS ou seguindo placas.
Em pouco mais de dois meses, pelo menos quatro casos graves ganharam repercussão. O RJ2 percorreu algumas dessas regiões para conferir como está a sinalização na cidade.
Na última sexta-feira, um homem de 80 anos escapou por muito pouco de ser morto ao entrar por engano na Cidade Alta, local dominado pelo tráfico de drogas.
“O aplicativo mandou que eu saísse da estrada por causa de uma obstrução. E eu obedeci e entrei numa comunidade em Cordovil. Imediatamente, comecei a ver pessoas nas esquinas com fuzis. Acelerei o carro e não obedeci a ordem de parar. Fui perseguido por um carro branco, e eles começaram a atirar tiro de fuzil contra o meu carro”, contou o motorista.
O RJ2 esteve onde ele passou. O homem chegava ao Rio pela Via Dutra e pegou a Avenida Brasil na direção do centro do Rio, até que o aplicativo o orientou a entrar em uma das ruas à direita da via.
Em um ponto da Avenida Brasil que costuma ter engarrafamento, é normal que os aplicativos indiquem a Rua Pinto da Luz como alternativa para fugir da retenção. Uma placa fica bem próxima à Pinto da Luz e indica o acesso à comunidade Cidade Alta, um aviso que não traz a dimensão dos cuidados que se deve ter, uma vez que toda essa localidade é dominada pelo tráfico de drogas.
Assim como esse homem de 80 anos, outras pessoas têm sido vítimas desse tipo de situação. Entre novembro e fevereiro do ano passado, foram quatro casos. A sequência de episódios expõe um problema da cidade: a deficiência na sinalização pública para identificar que existem áreas da cidade nas quais a população não pode circular com segurança.
A equipe do telejornal quipe percorreu algumas das principais vias da cidade e encontrou algumas placas. Como na Linha Amarela, onde há sinalização de localidades dominadas pelo tráfico, mas elas não deixam claro os riscos. No caso da comunidade Águia de Ouro, a placa mostra em destaque a palavra “Atenção”.
Outro ponto visitado pela reportagem m centro comercial, na altura do BRT Mercado São Sebastião, na Avenida Brasil. A reportagem pediu um carro por aplicativo para ir para um shopping que fica perto.
O profissional afirmou que tinha acabado de passar por uma situação de risco. “Ainda agora eu dispensei uma viagem porque tinha uma barricada na rua, aqui na lateral. Não tinha como passar e tive que cancelar porque a área era de risco. Não tem como. E o aplicativo não mostra”, lamentou o motorista.
“[Preciso ter cuidado] Principalmente sentido Centro. Todas as vias à direita, não entro em nenhuma. Não tem condição. É entrar e bater de frente com o pessoal do tráfico mesmo”, acrescentou.
Segundos depois disso, houve um exemplo do problema. O motorista se distraiu e fez o que ele não costuma fazer – entrou à direita em uma rua na Avenida Brasil.
“Aqui na Avenida Brasil a gente passa por vias complicadas em termos de localização, é isso? Exato… área de risco, né? Algumas ruas fechadas… Essa aqui já é uma, eu já ia entrar. Estamos na Rua Iguapera. Todas as ruas aqui têm barricada e o aplicativo não mostra”, explicou.
Com uma barricada à direita, o aplicativo mandava entrar na Rua Iguapera, mas o motorista percebeu e a equipe conseguiu fazer a conversão.
“O único jeito de chegar ao destino é dar a volta, pegar a Brasil novamente e pegar o trânsito. A gente não consegue ir pelo caminho mais curto. O aplicativo até coloca, mas não tem como. A gente fica à mercê”, diz ele.
“Eu tô há 4 anos no aplicativo e 4 anos passando esse perrengue e isso não é só aqui na Avenida Brasil. No Rio de Janeiro todo é igual. Eu procuro sempre as vias expressas, e não entrar nas ruazinhas, sem olhar antes. Ali mesmo, eu conversando distraído, acabei entrando. Graças a Deus ali dava para ver uma barricada e não fui mais à frente. Mas, se é de noite, não dá, não dá pra ver. E muitos lugares não têm e a gente quando vê já tá dentro da comunidade.”
A Avenida Automóvel Clube é outra que deixa o motorista muito vulnerável em vários pontos. “Existe uma via aqui do lado que o aplicativo acaba mandando a gente para sair do trânsito. Agora mesmo, tá trânsito e ela já tá mandando ali na frente eu entrar à direita para poder fugir do trânsito… Não pode entrar. Entrar ali é pedir pra passar problema”, disse o motorista.
Em cerca de 1 hora de corrida, o RJ2 só trafegou por vias principais na Zona Norte. Quando se deparou com engarrafamentos, não havia opções de desvio.
E o aplicativo muitas vezes dá essas ruas para fugir de que tipo de engarrafamento… pra ir pra quais locais? Daqui a gente vai para Del Castilho… se essa via engarrafar, com certeza o aplicativo vai mandar a gente entrar à direita, pegar a primeira à esquerda e seguir a paralela a essa principal – já é comunidade. Ali já é dominado pelo tráfico, é perigoso, mas o aplicativo manda a gente entrar. E quem não conhece, entra.
“No meu entendimento, a placa deve ser entendida como uma placa de informação contínua. Ela deve começar no centro da cidade do Rio de Janeiro e ir até quase o limite do município. Então essa informação contínua é que vai dar segurança ao usuário, ele vai provavelmente ter menos chances de entrar em um beco, por exemplo, ou em um lugar que esteja mal iluminado ou não identificado”, diz Gérard Fischgold, arquiteto e urbanista.
Na falta de sinalização, motoristas profissionais ou não – moradores da cidade ou turistas, vivem sob a mesma ameaça.
“ É muito complicado, muito ruim, é muito inseguro. É uma profissão que a gente tá exercendo com uma insegurança gigante. O governo também poderia botar placas dizendo que a gente não pode entrar nessa rua. Porque realmente a gente não pode”, opinou o motorista.
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